Definindo o projeto ilha

- Tive uma idéia.

- Hum...

- Conseguimos um pedaço de terra. Um pedaço de terra considerável...

- Quão considerável?

- O ideal seria uma ilha. Por conta da possibilidade de controlá-la melhor, patrulhá-la. Mas, sobretudo, por conta de toda a simbologia das ilhas – coisas que as pessoas criam para deixar suas tristezas mais bonitas. Isso do isolamento de se viver em uma ilha, isso de estar flutuando cercado por mar, isso dos portos, isso dos estrangeiros que chegam apenas de passagem...

- Sim, continue.

- Pois então, elijo uma ilha. Justificando assim: por que é da natureza humana embelezar seus flagelos, tranformando-os em autoflagelos poéticos.

- Bem justificado.

- Bom, então faremos tudo diferente. Outro sistema: onde todos sejam iguais e o dinheiro não governe tudo.

- Criativo.

- Bajulador... Depois que instalarmos o sistema, chamaremos todo o mundo para ver como tudo é diferente.  Irão americanos rosados com suas ropas de safári, japoneses com suas câmeras fotográficas histéricas, intelectuais europeus e suas boinas e seus cigarros seguidos, estudantes universitários latino americanos envolvidos com o movimento estudantil e suas chinelas rasteirinhas de couro e muito dinheiro no bolso... Todos atraídos pela sedutora diferença da igualdade.

- Ambicioso.

- Ambição é indispensável para qualquer negócio.

- E quando chegarem à ilha?

- Vão se decepcionar, por certo. Haverá desigualdade, muita dificuldade.

-...?

- Apesar disso, vão estar encantados. As pessoas preferem a tragédia, preferem a surpresa à confirmação. Irão e verão tudo ao inverso do que haviam imaginado. Assim, cada qual pensará que é capaz de ver mais coisas que o outro. Voltarão aos seus países dizendo que toda a propaganda sobre a ilha era falsa. Dirão isso orgulhosos, como se só eles possuíssem os olhos especiais para ver a realidade.

- Então, depois dos primeiros, outros não irão voltar?

- Claro que sim. Mais e mais. Isso só aumentará a curiosidade das pessoas. Ambiguidades, paradoxos: ingredientes essenciais para criar um mito.

- E como vai ser a estadia na ilha?

- Seria como assistir “Survivor”. Veriam o povo da ilha passando dificuldades que nunca sofreriam: uma espécie de catarse ficcional. Vão se sentir generosos como madre Teresa de Calcutá ao deixarem cair uma moedinha de seus bolsos. E, quando voltarem aos seus países de origem, pensarão que suas casas e suas vidas desgraçadas são demasiadamente melhores do que lhes parecia antes. “Não há lugar como o nosso lar”, já dizia a sábia Dorothy.

- Nice. E qual será a principal atividade econômica da ilha, seu sustento?

- Algumas poucas, não sei ainda, qualquer uma, é indiferente. Muitos financiarão a ilha: por culpa, fascinação, idiotice. Sempre estarão nos patrocinando, e o povo não terá muito onde trabalhar. O papel principal do povo será atuar essa dor, essa falta, pelas ruas da ilha – embora nunca façam idéia de que estão atuando, e estejam de fato sentindo dor e falta.

- Isso me soa cada vez melhor.

- Como o povo da ilha estará proibido de sair dela, isso permitirá que todos os visitantes vivenciam o grande amor de suas vidas lá. Sim, por que as pessoas só vivem grandes amores de suas vidas quando têm a certeza de que podem abandoná-los definitivamente. Vão se entregar a esses amores de corpo e alma, vão se sentir humanos como nunca antes, por que saberão que, ao final, o amor vai ficar ilhado, intacto, em seus corações e na ilha. De volta aos seus países, continuarão com suas vidas medíocres, pensando a cada 3 ou 4 meses, como tudo teria sido diferente se pudessem ter levado seus grandes amores consigo. Mas, no fundo, contentes pela distância, por essa dorzinha, pela beleza de um amor cristalizado pela falta de um cotidiano que, para eles, sempre acaba por matar um amor. As pessoas já não sabem mais amar por muito tempo.

- Impressionante, você tem tudo pensado nos mínimos detalhes.

- Prosperidade, companheiro. Há que ser astuto.Tudo isso, esses disparates, essas incongruências, gerarão polêmicas, discussões, e até guerras, que só servirão para aumentar a nossa audiência. A ilha será um grande borrão no mapa múndi, que todos quererão ver de perto para entender.  Na verdade, o que querem é tornarem-se borrões também. O homem está sempre buscando a inconsciência. Por isso, na ilha tudo vai ser tão raro como em um sonho. Quem passar pela ilha viverá felizes momentos de estranhamento, como em um filme de David Lynch. Serão sonâmbulos satisfeitos.

- Lindo, lindo.

- Obrigado. Seu papel já está garantido nisso tudo, não se preocupe.

- Fico lisonjeado. Mas, afinal, como chamaremos esse novo sistema?

- Turismo.

Em seco

disse meu amigo:

esse meu país não tem quem o conserte

eu quis dizer: o meu também não

mas não disse

ninguém quer que compitam com suas amarguras

nunca relativizar insatisfações: é falta de decoro

melhor assim:

cada um com seu desconserto, cada pátria com seu descontente

Teatro em Havana

Eu amo o teatro. Nunca havia dito isso antes. Sempre respeitei, mas sempre me parecia algo demasiado místico de uma maneira um pouco imutável, algo que já tinha passado. Agora, depois que o Festival Internacional de Teatro de Havana se acabou, posso dizer que eu amo completamente o teatro. Aqui, sinto o teatro vivo. Todas as peças disputadíssimas por jovens que entendem de teatro, estudam teatro, consomem teatro. Não sei, senti o teatro rico como nunca, contemporâneo no melhor sentido da palavra.

Assisti a “Nacidos com Ira”, obra alemã da jovem e simpática Darja Stocker, de apenas 27 anos, do famoso teatro Máximo Gorki. Uma obra que fala da do fracasso das utopias (tão apropriado para o contexto cubano) através do personagem de uma jovem que faz trabalho comunitário na África, seu pai, um fracassado ativista do movimento juvenil, e sua avó, uma antiga lutadora da resitência francesa contra a ocupação alemã. Some à isso uma prostituta que quer morrer e um parelalo com a história de Olympe Gouges, ativista da revolução francesa, que negou a declaração dos Direitos Humanos e redatou a sua própria Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã, e que acabou morta na guilhotina. Soluções de cenários ultra modernas, uso bem apropriado de vídeo arte e documental, e tinta sendo cuspida para todos os lados fazem dessa montagem uma coisa linda de se ver. Sem falar dos atores. Outro dia fui ver uma palestra com a autora, e três das atrizes no Instituro Ludwig. Foi um dia lindo, numa cobertura em Havana com uma vista privilegiada (pena que acabou a bateria da minha câmera), e um debate muito rico entre os alemães e os cubanos interessados em teatro. Depois, tivemos um almoço oferecido por eles. Bati papo com a atriz Anja Schneider e fiquei feliz da vida. Além disso, pude ver pessoalmente Dea Loher,uma das maiores dramaturgas da atualidade,  que escreveu, entre outras, “A Vida na Praça Roosevelt”.

Vi também a brasileira “Orestea, el canto de chivo”, uma montagem exageradamente brechtiniana de três peças de Ésquilo. Não sabia que duraria 3 horas e meia, e fui embora depois de 2 horas, por que já tinha comprado ingresso para “Neva”, uma peça chilena que todos diziam que não podia perder. Os brasileiros me pareceram interessantes – todavia histéricos – e nada muito além disso. Corri a ver “Neva”, do Teatro en Blaco, um espetáculo minimalista que continha as melhores atuações que já vi ao vivo em minha vida. No palco, uma cadeira, uma lâmpada e três atores estupendos e generosos. A viúva de Tchekov ensaia o monólogo de uma peça, sem sucesso, enquanto fora, ocorre o Domingo Sangrento. Ela, na companhia de uma outra atriz – que questiona constantemente a função do ator em tempos de guerra  e pobreza– e de outro ator, reecriarão a cena da morte de Tchekov repetidas vezes e de distintas maneiras, por puro prazer da viúva, enquanto discutem sem parar os limites da ficção e do que há de realidade na atuação. Profundo até o talo. Como disse uma das atrizes que vi na palestra sobre a obra no dia seguinte: “a arte tem que jogar luz onde dói mais”, e eles com certeza lograram fazer isso. O  texto do autor, não me acordo seu nome, não deixa nada a desejar ao próprio Tchekov.

No domingo, quando encerrou o Festival, vi novamente “As Amargas Lágrimas de Petra von Kant”, e a montagem me pareceu ainda melhor. Não posso compreender como atores do nível desses cubanos, e com uma montagem boa como essa, não possam sair apresentado-a mundo afora. Por fim, vi  outra cubana “Visiones de la Cubanosofía”, do grupo “El Ciervo Encantado”. Simplesmente monstruosamente diferente de tudo o que eu já vi na mina vida. Um teatro simbólico, plástico e com atuações bizarras no bom sentido. A atriz principal, que fazia quase todos os papéis, conferia a cada um deles uma voz impressionante e alienígena, e todas diferentes entre si. A peça conta, de maneira completamente simbólica e experimental, em apenas uma hora, a história de Cuba até a contemporaneidade. Uma hora inundada de significado, de uma precisão e concisão absurdas.  A primeira cena já dá um pouco do tom da peça: As cortinas de abrem e vemos a Virgem da Caridade de Cobre, padroeira dos cubanos, com um manto azul suntuoso, e uma longa barba negra (que não consta da figura original). De repente, a imagem que creíamos ser um boneco, começa  a falar com uma voz monstruosa, medonha, que vou ouvir com certeza em meus pesadelos. O rosto da atriz está coberto de uma maneira que parece ter uma cabeça minúscula, suas expressões nos fazem crer que estamos diante do diabo, e não da Virgem. Em um extenso monólogo de imagens alucinantes fala do nascimento de Cuba. Absurdo como o próprio país.

Bom, lamento dizer, mas o Festival me impediu de atender ao taller de Godard de Phillipe Dubois. Mas, uns poucos que se aventuraram a ir me disseram que não valeu à pena.  

Minha fotonovela ficou melhor do que eu pensava, foi divertido a aprender a usar (relativamente bem) a câmera analógica e o laboratório. Quem sabe a publico aqui mais para a frente. Agora, começamos o curso de História do Cinema Latinoamericano, dado por Joel del Rio, um cubano bem engraçado. O primeiro filme que vimos foi “Limite”, de Mario Peixoto. Já o tinha visto no curso do Calil na USP, quando eu tinha 18 anos. Agora, sua experimentação me pareceu muito mais interessante e palatável.

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