Segunda-feira tivemos um dia inteiro de Análise da Imagem , já que o taller de Jornada do Herói acabou na sexta. Vimos a relação entre alta e baixa cultura, falamos do kitsch, do camp, da arte naif, etc. Assistimos um curta de 1985, de Godard, onde halterofilistas são desejados pela imagem de duas mulheres nuas – é de uma coletânea de curtas, onde cada curta é baseado em  uma ária. Depois assistimos a um curta documental feito na escola há uns 20 anos, muito bom, sobre um pianista/halterofilista cubano, onde os conflitos e harmonias entre alta e baixa cultura se mostravam no próprio personagem. Depois vimos trabalhos onde o kistch se manifesta de maneira legitimada como em LaChapelle, Oldenburg, e também através do pornográfico como em Jeff Koons, Richard Kern e Tom of Finland.  

À noite, começamos o taller aberto do francês Philippe Dubois. Seu taller consiste em investigar a relação fotografia fixa/cinema. Para ele, há muito movimento na fotografia e muita imobilidade no cinema. Para isso, está nos apresentando 4 cineastas que são ao mesmo tempo cineastas e fotógrafos, cuja filmografia flerta ou está totalmente baseada no trabalho fotográfico. São eles: Agnes Varda, Raymond Depardon, Chris Marker e Robert Frank. Começamos por Varda. Assistimos um filme de 30 minutos de 1963 chamado “Salut les Cubains”, feito apenas com fotos, mostrando uma visão bem ingênua e divertida da revolução. Depois vimos “Ulisses” (de 22 minutos), de 1982, onde Varda investiga o significado de uma foto tirada por ela 20 anos antes. Um ótimo filme sobre a memória e a construção artística, me lembrou muito “Santiago”.  Ontem, quarta-feira, vimos Chris Marker, e sua extensa e variada filmografia. Semana que vem, Philippe Dubois dará outro taller aberto, dessa vez, apenas sobre Godard, em que é especialista. 

Na terça, começamos um novo taller (substituindo Análise da Imagem e Jornada do Herói), que vai de manhã  à tarde, chamado Fotonovela e dado pelo uruguaio Pablo Porciuncula.  Estamos aprendendo sobre foto fija, tendo alguns exercícios de foto, e tratando de entender um pouco da linguagem de fotonovela, por que, semana que vem, cada um dirigirá e fotografará sua própria fotonovela em 12 fotos (embora o trabalho seja em grupos de 10, cada um dirige o seu, ajudado pelos outros do grupo), que depois serão reveladas e impressas por nosotros mesmos.

O calor voltou a assolar a ilha. Saímos do horário de verão, e agora temos uma diferença de 3 horas com o Brasil. 

Utopia não caminha, pára

Utopia é ostracismo

Utopia entope 

Prefiro uma pia à utopia

Querida Ruth

Nas fotos abaixo a querida Ruth, com Andres sentado. Na outra foto ela com o tradutor.

 




1a foto - Na escola

2a foto - Rodrigo

 



 

 

1a foto - Leminski na parede da escola

2a foto - Macarronada brasileira

3a foto - Macarronada no ap do Dudu






 

Algumas fotos

1a foto - Casa dos professores

2a foto - Eu e Marinete na aula final da Ruth

3a foto - Frio em Cuba

 





 


A quarta aula de Jornada do Herói foi  sobre cine experimental, e foi ótima para percebemos que a estrutura dos mitos – embora eu não creia que
em 100% das vezes possa ser vista tal e qual – pode ser vista também em um um cinema não aristotélico. Foi uma ótima oportunidade para falarmos melhor de Jung e Freud e do mundo simbólico dos sonhos, uma vez que muito do cine experimental lida com o onírico e, afinal, “o mito é o sonho público, e o sonho é o mito privado”. Começamos assistindo um curta de Maya Daren, “Meshes of the Afternoon” (algo como Cacos da Tarde), de 1943. Daren é uma russo-americana que teve enorme influencia sobre a vanguarda americana da época. Para ela, o realizador é sempre protagonista – ela mesma atua em seus filmes – o que converte a experiencia cinematográfico em uma jornada de auto-descobrimento. Eu fiquei de queixo caído com o filme e de como tem anto, mas tanto que ver com o meu primeiro curta “Pérolas”. A professora Ruth, que já tinha visto o meu curta, ficou impressionada com o fato de que eu não conhecesse o trabalho de Daren.

Depois, vimos um curta do famoso Keneth Anger, que trabalha o cinema como forma de evocar forças primitivas, uma espécie de ritual, e também está em constante diálogo de amor e ódio com Hollywood. O curta era “Fireworks”, de 1947,  que realizou quando apenas tinha 17 anos. Aqui, o diretor também é protagonista do filme, o que nos levou a discutir as dimensões ainda mais amplas de interpretações quando o realizador se coloca como seu próprio herói (a vida pessoal do realizador ganha peso interpretativo – Daren, por exemplo, está fazendo uma reflexão sobre seu próprio casamento em “Meshes...”, filme em que seu próprio marido é o fotógrafo).  Já tinha assistido “Fireworks” antes. Prefiro Daren. Não sei, é preciso ver Anger com distanciamento temporal, por que, para mim, seus símbolos, já foram tão reelaborados depois dele, que estão esgastados. O mesmo acontece com o outro curta de Anger que assistimos na aula à noite, “Scorpio Rising”, que, na minha maneira de ver em 2009, faz uso de códigos religiosos e de Hollywood de maneira infantil e um tanto redundante.  Depois, assistimos dois curtas de Stan Brakhage, outro americano. O primeiro se chamava “Window Water Baby Crying” e consistia na gravação da preparação de sua mulher para o parto e o parto em si de seu primeiro filho – claro, do ponto de vista de um vídeo-artista. Aí, a Jornada do Herói pode ser interpretada de múltiplas maneiras, desde uma visão de um casal se tornando pais, ou desse próprio bebê que está saindo do seu mundo de segurança, o ventre materno, em busca de algo. Depois vimos outro de Brakhage “A arte de ver com seus próprios olhos”, que é exatamente o que significa a palavra autópsia. Nesse filme, somos apresentados a várias autópsias durante meia hora – lógico, mais uma vez reforço, do ponto de vista de um vídeo-artista. O filme é inquietante e, como em “Window Water...” a falta de qualquer som só intensifica a força das imagens. As interpretações sobre quem era o herói do filme foram as mais variedas: desde a raça humana em sua efemeridade, até a que me parece mais interessante, a de que o herói desse filme é o próprio espectador, que tem que aceitar ou não se deparar com o incomôdo da morte através dessas imagens altamente estetizadas de corpos abertos. É um filme que, de fato, faz o espectador passar por diversos estágios da Jornada: negar a sua missão no mundo da aventura (fechar os olhos, por exemplo), encontrar maneiras de superar sua jornada (em dado momento do filme, o espectador necessita se distanciar da imagem, tentando apenas vê-la como objeto estético e não como corpos mortos para suportar continuar),  e enfim, o espectador – como o herói - passa por uma mudança tão profunda, e já não pode encarar a morte da mesma maneira (o herói sempre é modificado, aprende algo). A partir daí aprofundamos o conceito de catarse. Na última aula, na sexta feira, analisamos uma comédia tão profunda e tão poliinterpretativa que não quero nem começar a discussão: “Sullivan´s Travel” de Preston Sturges. Um filme sobre um diretor de comédias que quer fazer um filme político sobre a pobreza. Para isso, ele tenta se infiltrar no mundo dos pobres, sem sucesso. Por fim, por acaso, cai na pobreza sem querer, e vivenciando a pobreza, decide não fazer seu almejado filme político mas sim, mais uma vez, uma comédia. Como não quero entrar muito no assunto, somente digo isso: é um filme muito bom. Quase toda a sala o encarou como uma apologia da alienação através da comédia. Eu, e outros poucos, encarou-o como um filme terno e sincero, que critica a burguesia que se crê educadora. À noite, falamos mais de Freud e Jung, ao analisar o filme “A escada de Jacob”, um terror psicológico de guerra, que tem lá alguma coisa, mas que não é lá grande coisa. Vale mais pelo Tim Robbins descamisado e pelo McCaulay Culkin antes mesmo de “Esqueceram de Mim”.

As aulas de História da Arte mudaram de nome graças a minha adorável sugestão. Agora são assumidamente Análise da Imagem. Interessantes e ya. Sábado fomos eu e dois amigos a um povoadinho que fica a 20 minutos a pé da escola. Chama-se San Tranquilino. 200 habitantes que, me pareceram, acima de tudo, carentes de contato humano e cultural, sem falar da escassez de alimentos e por aí vai. A bateria da câmera acabou, mas quando voltar lá saco algumas fotos.  Assisti “Vergonha” de Bergman, e domingo houve projeção de “Bad Guy”, que tem lá seus momentos, embora seus últimos 20 minutos me pareçam os piores já feitos pelo coreano Kim Ki Duk – sem falar do quanto a peli é machista.

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