Bom, estou aqui para avisar que o blog mudou, e que estou muito feliz com isso. Agora, o novo endereço é http://cubanacam.blog.uol.com.br/. Sigam por lá. Besos.  

Atropelado. Assim me pareceu o curso de cine Iberoamericano. Vimos basicamente as pelis mais importantes de Brasil, Argentina, México, Cuba e Espanha até os anos 60. Assistimos uma comédia mexicana com Cantinflas (o Grande Otelo deles), um melodrama também mexicano chamado “Maria Candelária”, “Lucia” - um ótimo épico cubano em 3 episódios, e “Macunaíma”. O resto foram apenas trechos durante as aulas, referências de filmes, um pouco da história do cinema novo, etc.  Embora o curso tenha seu enfoque maior nos brasileiros, o mais interessantes me pareceram os cubanos, com filmes como “A Morte de um Burócrata” de Humberto Solas, e de outros tantos do gênio Tomas Gutierrez Alea.
Tivemos uma projeção especial do filme uruguaio “Hiroshima” (2009), dirigido por Pablo Stoll – o mesmo de “25 Watts” e “Whiskey”. A projeção aconteceu por que o produtor e editor da peli, Fernando Epstein, está dando um curso na escola. O filme é do caray e foi gravado em apenas 2 semanas. Mostra um dia na vida de um jovem que canta em uma banda de rock – interpretado pelo irmão de Stoll – o vazio do seu cotidiano, e o marasmo que precisa enfrentar para finalmente lograr se comunicar através da música. Os poucos diálogos do filme nos são apresentados em carteles como de cinema mudo – recurso que gerou controvérsias entre os espectadores, mas que me pareceu bem apropriado.  O mais interessante do filme, que trabalha muito bem alargamentos temporais, é que somos apresentados ao cotidiano vazio desse jovem de uma maneira realista, que, aos poucos, vai transitando de uma maneira sutil e natural para o absurdo e o fantástico sem que o espectador se dê conta. Elementos delirantes como uma partida de futebol que nunca acaba e frangos assados que nunca ficam prontos dão esse toque especial. Além disso, um grande filme de sonido.
Nessa onda minimalista, vi por conta própria o mexicano “Lake Tahoe”, um conto sobre a superação da morte. Outro grande filme que trabalha muito bem alargamentos temporais, também recente, que há que ver. Sinto falta de coisas minimais assim no cine brasileiro, que vem me parecendo cada vez mais histérico e histriônico – com ótimas exceções, claro. Vi também a primeira peli de Fassbinder, “O amor é mais frio do que a morte”, que me pareceu boníssima para uma ópera prima.
Domingo fui à Havana assistir a peça “A Visita da Velha Dama”, do grupo BuenDía. Bela montagem, mais uma crítica apropriada à revolução.
Segunda começaremos um curso intenso de produção. Dizem que bastante intenso: do tipo manhã, tarde, noite, madrugada e fins de semana. Não vejo a hora de que chegue dia 3 de dezembro para o Festival de Havana. Sei que 3 brasileiros estão competindo. “À Deriva”, de Heitor Dhalia, filme que vi poucos antes de sair do Brasil e de que gostei muito. “Viajo por que preciso, volto por que te amo”, de Karin Ainouz e M.Gomez e “Hotel Atlântico”, de Suzana Amaral, que já foi uma querida professora. Em breve, coloco a programação completa por aqui. 

Definindo o projeto ilha

- Tive uma idéia.

- Hum...

- Conseguimos um pedaço de terra. Um pedaço de terra considerável...

- Quão considerável?

- O ideal seria uma ilha. Por conta da possibilidade de controlá-la melhor, patrulhá-la. Mas, sobretudo, por conta de toda a simbologia das ilhas – coisas que as pessoas criam para deixar suas tristezas mais bonitas. Isso do isolamento de se viver em uma ilha, isso de estar flutuando cercado por mar, isso dos portos, isso dos estrangeiros que chegam apenas de passagem...

- Sim, continue.

- Pois então, elijo uma ilha. Justificando assim: por que é da natureza humana embelezar seus flagelos, tranformando-os em autoflagelos poéticos.

- Bem justificado.

- Bom, então faremos tudo diferente. Outro sistema: onde todos sejam iguais e o dinheiro não governe tudo.

- Criativo.

- Bajulador... Depois que instalarmos o sistema, chamaremos todo o mundo para ver como tudo é diferente.  Irão americanos rosados com suas ropas de safári, japoneses com suas câmeras fotográficas histéricas, intelectuais europeus e suas boinas e seus cigarros seguidos, estudantes universitários latino americanos envolvidos com o movimento estudantil e suas chinelas rasteirinhas de couro e muito dinheiro no bolso... Todos atraídos pela sedutora diferença da igualdade.

- Ambicioso.

- Ambição é indispensável para qualquer negócio.

- E quando chegarem à ilha?

- Vão se decepcionar, por certo. Haverá desigualdade, muita dificuldade.

-...?

- Apesar disso, vão estar encantados. As pessoas preferem a tragédia, preferem a surpresa à confirmação. Irão e verão tudo ao inverso do que haviam imaginado. Assim, cada qual pensará que é capaz de ver mais coisas que o outro. Voltarão aos seus países dizendo que toda a propaganda sobre a ilha era falsa. Dirão isso orgulhosos, como se só eles possuíssem os olhos especiais para ver a realidade.

- Então, depois dos primeiros, outros não irão voltar?

- Claro que sim. Mais e mais. Isso só aumentará a curiosidade das pessoas. Ambiguidades, paradoxos: ingredientes essenciais para criar um mito.

- E como vai ser a estadia na ilha?

- Seria como assistir “Survivor”. Veriam o povo da ilha passando dificuldades que nunca sofreriam: uma espécie de catarse ficcional. Vão se sentir generosos como madre Teresa de Calcutá ao deixarem cair uma moedinha de seus bolsos. E, quando voltarem aos seus países de origem, pensarão que suas casas e suas vidas desgraçadas são demasiadamente melhores do que lhes parecia antes. “Não há lugar como o nosso lar”, já dizia a sábia Dorothy.

- Nice. E qual será a principal atividade econômica da ilha, seu sustento?

- Algumas poucas, não sei ainda, qualquer uma, é indiferente. Muitos financiarão a ilha: por culpa, fascinação, idiotice. Sempre estarão nos patrocinando, e o povo não terá muito onde trabalhar. O papel principal do povo será atuar essa dor, essa falta, pelas ruas da ilha – embora nunca façam idéia de que estão atuando, e estejam de fato sentindo dor e falta.

- Isso me soa cada vez melhor.

- Como o povo da ilha estará proibido de sair dela, isso permitirá que todos os visitantes vivenciam o grande amor de suas vidas lá. Sim, por que as pessoas só vivem grandes amores de suas vidas quando têm a certeza de que podem abandoná-los definitivamente. Vão se entregar a esses amores de corpo e alma, vão se sentir humanos como nunca antes, por que saberão que, ao final, o amor vai ficar ilhado, intacto, em seus corações e na ilha. De volta aos seus países, continuarão com suas vidas medíocres, pensando a cada 3 ou 4 meses, como tudo teria sido diferente se pudessem ter levado seus grandes amores consigo. Mas, no fundo, contentes pela distância, por essa dorzinha, pela beleza de um amor cristalizado pela falta de um cotidiano que, para eles, sempre acaba por matar um amor. As pessoas já não sabem mais amar por muito tempo.

- Impressionante, você tem tudo pensado nos mínimos detalhes.

- Prosperidade, companheiro. Há que ser astuto.Tudo isso, esses disparates, essas incongruências, gerarão polêmicas, discussões, e até guerras, que só servirão para aumentar a nossa audiência. A ilha será um grande borrão no mapa múndi, que todos quererão ver de perto para entender.  Na verdade, o que querem é tornarem-se borrões também. O homem está sempre buscando a inconsciência. Por isso, na ilha tudo vai ser tão raro como em um sonho. Quem passar pela ilha viverá felizes momentos de estranhamento, como em um filme de David Lynch. Serão sonâmbulos satisfeitos.

- Lindo, lindo.

- Obrigado. Seu papel já está garantido nisso tudo, não se preocupe.

- Fico lisonjeado. Mas, afinal, como chamaremos esse novo sistema?

- Turismo.

Em seco

disse meu amigo:

esse meu país não tem quem o conserte

eu quis dizer: o meu também não

mas não disse

ninguém quer que compitam com suas amarguras

nunca relativizar insatisfações: é falta de decoro

melhor assim:

cada um com seu desconserto, cada pátria com seu descontente

Teatro em Havana

Eu amo o teatro. Nunca havia dito isso antes. Sempre respeitei, mas sempre me parecia algo demasiado místico de uma maneira um pouco imutável, algo que já tinha passado. Agora, depois que o Festival Internacional de Teatro de Havana se acabou, posso dizer que eu amo completamente o teatro. Aqui, sinto o teatro vivo. Todas as peças disputadíssimas por jovens que entendem de teatro, estudam teatro, consomem teatro. Não sei, senti o teatro rico como nunca, contemporâneo no melhor sentido da palavra.

Assisti a “Nacidos com Ira”, obra alemã da jovem e simpática Darja Stocker, de apenas 27 anos, do famoso teatro Máximo Gorki. Uma obra que fala da do fracasso das utopias (tão apropriado para o contexto cubano) através do personagem de uma jovem que faz trabalho comunitário na África, seu pai, um fracassado ativista do movimento juvenil, e sua avó, uma antiga lutadora da resitência francesa contra a ocupação alemã. Some à isso uma prostituta que quer morrer e um parelalo com a história de Olympe Gouges, ativista da revolução francesa, que negou a declaração dos Direitos Humanos e redatou a sua própria Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã, e que acabou morta na guilhotina. Soluções de cenários ultra modernas, uso bem apropriado de vídeo arte e documental, e tinta sendo cuspida para todos os lados fazem dessa montagem uma coisa linda de se ver. Sem falar dos atores. Outro dia fui ver uma palestra com a autora, e três das atrizes no Instituro Ludwig. Foi um dia lindo, numa cobertura em Havana com uma vista privilegiada (pena que acabou a bateria da minha câmera), e um debate muito rico entre os alemães e os cubanos interessados em teatro. Depois, tivemos um almoço oferecido por eles. Bati papo com a atriz Anja Schneider e fiquei feliz da vida. Além disso, pude ver pessoalmente Dea Loher,uma das maiores dramaturgas da atualidade,  que escreveu, entre outras, “A Vida na Praça Roosevelt”.

Vi também a brasileira “Orestea, el canto de chivo”, uma montagem exageradamente brechtiniana de três peças de Ésquilo. Não sabia que duraria 3 horas e meia, e fui embora depois de 2 horas, por que já tinha comprado ingresso para “Neva”, uma peça chilena que todos diziam que não podia perder. Os brasileiros me pareceram interessantes – todavia histéricos – e nada muito além disso. Corri a ver “Neva”, do Teatro en Blaco, um espetáculo minimalista que continha as melhores atuações que já vi ao vivo em minha vida. No palco, uma cadeira, uma lâmpada e três atores estupendos e generosos. A viúva de Tchekov ensaia o monólogo de uma peça, sem sucesso, enquanto fora, ocorre o Domingo Sangrento. Ela, na companhia de uma outra atriz – que questiona constantemente a função do ator em tempos de guerra  e pobreza– e de outro ator, reecriarão a cena da morte de Tchekov repetidas vezes e de distintas maneiras, por puro prazer da viúva, enquanto discutem sem parar os limites da ficção e do que há de realidade na atuação. Profundo até o talo. Como disse uma das atrizes que vi na palestra sobre a obra no dia seguinte: “a arte tem que jogar luz onde dói mais”, e eles com certeza lograram fazer isso. O  texto do autor, não me acordo seu nome, não deixa nada a desejar ao próprio Tchekov.

No domingo, quando encerrou o Festival, vi novamente “As Amargas Lágrimas de Petra von Kant”, e a montagem me pareceu ainda melhor. Não posso compreender como atores do nível desses cubanos, e com uma montagem boa como essa, não possam sair apresentado-a mundo afora. Por fim, vi  outra cubana “Visiones de la Cubanosofía”, do grupo “El Ciervo Encantado”. Simplesmente monstruosamente diferente de tudo o que eu já vi na mina vida. Um teatro simbólico, plástico e com atuações bizarras no bom sentido. A atriz principal, que fazia quase todos os papéis, conferia a cada um deles uma voz impressionante e alienígena, e todas diferentes entre si. A peça conta, de maneira completamente simbólica e experimental, em apenas uma hora, a história de Cuba até a contemporaneidade. Uma hora inundada de significado, de uma precisão e concisão absurdas.  A primeira cena já dá um pouco do tom da peça: As cortinas de abrem e vemos a Virgem da Caridade de Cobre, padroeira dos cubanos, com um manto azul suntuoso, e uma longa barba negra (que não consta da figura original). De repente, a imagem que creíamos ser um boneco, começa  a falar com uma voz monstruosa, medonha, que vou ouvir com certeza em meus pesadelos. O rosto da atriz está coberto de uma maneira que parece ter uma cabeça minúscula, suas expressões nos fazem crer que estamos diante do diabo, e não da Virgem. Em um extenso monólogo de imagens alucinantes fala do nascimento de Cuba. Absurdo como o próprio país.

Bom, lamento dizer, mas o Festival me impediu de atender ao taller de Godard de Phillipe Dubois. Mas, uns poucos que se aventuraram a ir me disseram que não valeu à pena.  

Minha fotonovela ficou melhor do que eu pensava, foi divertido a aprender a usar (relativamente bem) a câmera analógica e o laboratório. Quem sabe a publico aqui mais para a frente. Agora, começamos o curso de História do Cinema Latinoamericano, dado por Joel del Rio, um cubano bem engraçado. O primeiro filme que vimos foi “Limite”, de Mario Peixoto. Já o tinha visto no curso do Calil na USP, quando eu tinha 18 anos. Agora, sua experimentação me pareceu muito mais interessante e palatável.

O taller de Phillipe Dubois prosseguiu sem muito entusiasmo da parte dos alunos. Apesar de vermos ótimos diretores, Dubois é mais um biografista do que qualquer outra coisa. Espero que seu outro taller, que começa hoje, sobre Godard, seja melhor. As aulas de fotonovela também vão mal. O professor é meio sonso e desinteressado, mas estamos aprendendo bastante de revelação com Ovídio – um professor cubano – nas aulas no laboratório. Quarta-feira fotografo a minha, e ainda nem tenho idéia da história.

Sexta-feira começou o Festival Internacional de Teatro de Havana. Eu, Carlos, Raul, Jorge, Rodrigo, Fidel e Valéria decidimos ir. Coisa que não é muito comum, sair durante a semana. Mas estávamos esgotados e sufocados na escola, então fomos depois das aulas da tarde. Comemos em um pizzaria estupenda (comida com sabor é bom para variar, né?), depois encontramos um show que estava na penúltima música,  e então fomos a um dos teatros ver uma montagem cubana de “As Amargas Lágrimas de Petra von Kant”, baseada na obra de Fassbinder. O lugar estava mega lotado e tivemos que sentar no chão, mas foi maravilhoso. Ótimos atores. Depois, passeamos um pouco, vimos as praças repletas de emos (aliás, penso seriamente em fazer um documentário sobre emos em Havana), e voltamos à escola de táxi. No sábado, fomos mais uma vez ao Festival. Vimos uma peça argentina chamada “Buscado”. Ruim. Só durou uma hora, menos mal. Novamente, comemos em uma outra ótima pizzaria chamada Fabio. Fabio era um jovem turista italiano que morreu em um atentado encomendado pela CIA ao hotel Copacabana em 1992. Depois de sua morte, o pai se tornou amigo da revolução e abriu uma pizzaria aqui. Agora me diz, seu filho morre e você decide abrir uma pizzaria em Cuba com o nome dele? Que coisa pra lá de mórbida. Para piorar, fiquei sabendo que há um filme italiano sobre ele, e também um ballet inspirado em sua história!!! Vamos combinar que é uma história um tanto banal para ser filme e ballet. Pizzaria até vai... huauhauhahu

Domingo não conseguimos ver peça alguma, estava tudo lotado. Então fomos tomar daiquiris no Fresas y Chocolate, que é um bar cheio de referências ao filme “Morangos e Chocolate” . Tentamos ver “Arrastame ao inferno”, mas a sessão já havia começado. Decidimos parar em outro bar para uns mojitos, depois comemos mais pizza (dessa vez uma chinfrinziha de rua, mas que também estava uma delícia) pegamos a guagua e voltamos a escola. Foi um fim de semana exaustivo, mas encantador - um fim de semana pizzoso. Aqui, continua bem abafado. Dizem que nessa época do ano a atmosfera do país fica coberta por uma nuvem de areia vinda do Saara, e por isso fica assim, insuportável, com o ar pesado.

Dia dos Mortos Mexicanos







Peluqueria

Peluqueria

 

Mais fotos

1 - Petra

2 - Pizzaria

3 - Praticamente escorre sangue do banco de sangue

4 - Prédio soviético, Havana passa

5 - Teatro Trianon

6 - Tentativa Frustrada

7 - Torcido

8 - Trapos

9 - Trupe

10 - Uma dessas estátuas

11 - Valéria

12 - Velha companheira de pizza

13 - Von Kant

14 - Wong Kar bus

 

Fotos


1 - 02

2 - A lua no Hotel Habana Libre

3 - As coisas precisam ser concertadas

4 - Carneiro e Barreras

5 - Coluna

6 - Farmácia


7 - Fotico

8 - Hotel


9 - Lua e malecon

10 - Me encanta a luz da hora mágica


11 - Nessa esquina, Fidel assumiu o caráter socialista da revolução


12 - No mundo capitalista isso seria retro


13 - O bar Morangos e Chocolate fora de foco

14 - Onibus Wong Kar-Wai

15 - Onibus Wong Kar-Wai

16 - Palmeira

 

Segunda-feira tivemos um dia inteiro de Análise da Imagem , já que o taller de Jornada do Herói acabou na sexta. Vimos a relação entre alta e baixa cultura, falamos do kitsch, do camp, da arte naif, etc. Assistimos um curta de 1985, de Godard, onde halterofilistas são desejados pela imagem de duas mulheres nuas – é de uma coletânea de curtas, onde cada curta é baseado em  uma ária. Depois assistimos a um curta documental feito na escola há uns 20 anos, muito bom, sobre um pianista/halterofilista cubano, onde os conflitos e harmonias entre alta e baixa cultura se mostravam no próprio personagem. Depois vimos trabalhos onde o kistch se manifesta de maneira legitimada como em LaChapelle, Oldenburg, e também através do pornográfico como em Jeff Koons, Richard Kern e Tom of Finland.  

À noite, começamos o taller aberto do francês Philippe Dubois. Seu taller consiste em investigar a relação fotografia fixa/cinema. Para ele, há muito movimento na fotografia e muita imobilidade no cinema. Para isso, está nos apresentando 4 cineastas que são ao mesmo tempo cineastas e fotógrafos, cuja filmografia flerta ou está totalmente baseada no trabalho fotográfico. São eles: Agnes Varda, Raymond Depardon, Chris Marker e Robert Frank. Começamos por Varda. Assistimos um filme de 30 minutos de 1963 chamado “Salut les Cubains”, feito apenas com fotos, mostrando uma visão bem ingênua e divertida da revolução. Depois vimos “Ulisses” (de 22 minutos), de 1982, onde Varda investiga o significado de uma foto tirada por ela 20 anos antes. Um ótimo filme sobre a memória e a construção artística, me lembrou muito “Santiago”.  Ontem, quarta-feira, vimos Chris Marker, e sua extensa e variada filmografia. Semana que vem, Philippe Dubois dará outro taller aberto, dessa vez, apenas sobre Godard, em que é especialista. 

Na terça, começamos um novo taller (substituindo Análise da Imagem e Jornada do Herói), que vai de manhã  à tarde, chamado Fotonovela e dado pelo uruguaio Pablo Porciuncula.  Estamos aprendendo sobre foto fija, tendo alguns exercícios de foto, e tratando de entender um pouco da linguagem de fotonovela, por que, semana que vem, cada um dirigirá e fotografará sua própria fotonovela em 12 fotos (embora o trabalho seja em grupos de 10, cada um dirige o seu, ajudado pelos outros do grupo), que depois serão reveladas e impressas por nosotros mesmos.

O calor voltou a assolar a ilha. Saímos do horário de verão, e agora temos uma diferença de 3 horas com o Brasil. 

Utopia não caminha, pára

Utopia é ostracismo

Utopia entope 

Prefiro uma pia à utopia

Querida Ruth

Nas fotos abaixo a querida Ruth, com Andres sentado. Na outra foto ela com o tradutor.

 




1a foto - Na escola

2a foto - Rodrigo

 



 

 

1a foto - Leminski na parede da escola

2a foto - Macarronada brasileira

3a foto - Macarronada no ap do Dudu






 

Algumas fotos

1a foto - Casa dos professores

2a foto - Eu e Marinete na aula final da Ruth

3a foto - Frio em Cuba

 





 


A quarta aula de Jornada do Herói foi  sobre cine experimental, e foi ótima para percebemos que a estrutura dos mitos – embora eu não creia que
em 100% das vezes possa ser vista tal e qual – pode ser vista também em um um cinema não aristotélico. Foi uma ótima oportunidade para falarmos melhor de Jung e Freud e do mundo simbólico dos sonhos, uma vez que muito do cine experimental lida com o onírico e, afinal, “o mito é o sonho público, e o sonho é o mito privado”. Começamos assistindo um curta de Maya Daren, “Meshes of the Afternoon” (algo como Cacos da Tarde), de 1943. Daren é uma russo-americana que teve enorme influencia sobre a vanguarda americana da época. Para ela, o realizador é sempre protagonista – ela mesma atua em seus filmes – o que converte a experiencia cinematográfico em uma jornada de auto-descobrimento. Eu fiquei de queixo caído com o filme e de como tem anto, mas tanto que ver com o meu primeiro curta “Pérolas”. A professora Ruth, que já tinha visto o meu curta, ficou impressionada com o fato de que eu não conhecesse o trabalho de Daren.

Depois, vimos um curta do famoso Keneth Anger, que trabalha o cinema como forma de evocar forças primitivas, uma espécie de ritual, e também está em constante diálogo de amor e ódio com Hollywood. O curta era “Fireworks”, de 1947,  que realizou quando apenas tinha 17 anos. Aqui, o diretor também é protagonista do filme, o que nos levou a discutir as dimensões ainda mais amplas de interpretações quando o realizador se coloca como seu próprio herói (a vida pessoal do realizador ganha peso interpretativo – Daren, por exemplo, está fazendo uma reflexão sobre seu próprio casamento em “Meshes...”, filme em que seu próprio marido é o fotógrafo).  Já tinha assistido “Fireworks” antes. Prefiro Daren. Não sei, é preciso ver Anger com distanciamento temporal, por que, para mim, seus símbolos, já foram tão reelaborados depois dele, que estão esgastados. O mesmo acontece com o outro curta de Anger que assistimos na aula à noite, “Scorpio Rising”, que, na minha maneira de ver em 2009, faz uso de códigos religiosos e de Hollywood de maneira infantil e um tanto redundante.  Depois, assistimos dois curtas de Stan Brakhage, outro americano. O primeiro se chamava “Window Water Baby Crying” e consistia na gravação da preparação de sua mulher para o parto e o parto em si de seu primeiro filho – claro, do ponto de vista de um vídeo-artista. Aí, a Jornada do Herói pode ser interpretada de múltiplas maneiras, desde uma visão de um casal se tornando pais, ou desse próprio bebê que está saindo do seu mundo de segurança, o ventre materno, em busca de algo. Depois vimos outro de Brakhage “A arte de ver com seus próprios olhos”, que é exatamente o que significa a palavra autópsia. Nesse filme, somos apresentados a várias autópsias durante meia hora – lógico, mais uma vez reforço, do ponto de vista de um vídeo-artista. O filme é inquietante e, como em “Window Water...” a falta de qualquer som só intensifica a força das imagens. As interpretações sobre quem era o herói do filme foram as mais variedas: desde a raça humana em sua efemeridade, até a que me parece mais interessante, a de que o herói desse filme é o próprio espectador, que tem que aceitar ou não se deparar com o incomôdo da morte através dessas imagens altamente estetizadas de corpos abertos. É um filme que, de fato, faz o espectador passar por diversos estágios da Jornada: negar a sua missão no mundo da aventura (fechar os olhos, por exemplo), encontrar maneiras de superar sua jornada (em dado momento do filme, o espectador necessita se distanciar da imagem, tentando apenas vê-la como objeto estético e não como corpos mortos para suportar continuar),  e enfim, o espectador – como o herói - passa por uma mudança tão profunda, e já não pode encarar a morte da mesma maneira (o herói sempre é modificado, aprende algo). A partir daí aprofundamos o conceito de catarse. Na última aula, na sexta feira, analisamos uma comédia tão profunda e tão poliinterpretativa que não quero nem começar a discussão: “Sullivan´s Travel” de Preston Sturges. Um filme sobre um diretor de comédias que quer fazer um filme político sobre a pobreza. Para isso, ele tenta se infiltrar no mundo dos pobres, sem sucesso. Por fim, por acaso, cai na pobreza sem querer, e vivenciando a pobreza, decide não fazer seu almejado filme político mas sim, mais uma vez, uma comédia. Como não quero entrar muito no assunto, somente digo isso: é um filme muito bom. Quase toda a sala o encarou como uma apologia da alienação através da comédia. Eu, e outros poucos, encarou-o como um filme terno e sincero, que critica a burguesia que se crê educadora. À noite, falamos mais de Freud e Jung, ao analisar o filme “A escada de Jacob”, um terror psicológico de guerra, que tem lá alguma coisa, mas que não é lá grande coisa. Vale mais pelo Tim Robbins descamisado e pelo McCaulay Culkin antes mesmo de “Esqueceram de Mim”.

As aulas de História da Arte mudaram de nome graças a minha adorável sugestão. Agora são assumidamente Análise da Imagem. Interessantes e ya. Sábado fomos eu e dois amigos a um povoadinho que fica a 20 minutos a pé da escola. Chama-se San Tranquilino. 200 habitantes que, me pareceram, acima de tudo, carentes de contato humano e cultural, sem falar da escassez de alimentos e por aí vai. A bateria da câmera acabou, mas quando voltar lá saco algumas fotos.  Assisti “Vergonha” de Bergman, e domingo houve projeção de “Bad Guy”, que tem lá seus momentos, embora seus últimos 20 minutos me pareçam os piores já feitos pelo coreano Kim Ki Duk – sem falar do quanto a peli é machista.

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